O voluntariado no Brasil reúne cerca de 6,5 milhões de pessoas e é majoritariamente exercido por mulheres, segundo dados recentes, em um cenário atravessado por desigualdades de gênero, raça, classe e faixa etária.
Levantamentos apontam que aproximadamente 62% dos voluntários são mulheres, com concentração significativa entre pessoas com 50 anos ou mais, e participação relevante na faixa de 25 a 49 anos. Esses perfis refletem, na avaliação de quem atua em movimentos e coletivos, a continuidade de papéis de cuidado assumidos historicamente no espaço privado que se estendem ao trabalho voluntário no espaço público.
Gênero e trabalho de cuidado
Pesquisas do IBGE indicam que mulheres dedicam quase o dobro do tempo que homens às atividades de cuidado, o que ajuda a explicar a predominância feminina no engajamento voluntário. Especialistas e militantes apontam que não se trata apenas de vocação individual, mas de uma construção social que naturaliza e desvaloriza economicamente o cuidado, tanto doméstico quanto comunitário.
Interseccionalidade: raça, classe e escolaridade
No recorte racial, os dados mostram 47,4% de voluntários brancos, 39,7% pardos e 11,4% pretos, indicando sub-representação proporcional de pessoas negras, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade. A participação também é condicionada por recursos como tempo e renda: a maior concentração de voluntários está na classe C, seguida pelas classes A/B, com menor presença nas classes D/E. A escolaridade contribui para o padrão, já que há maior engajamento entre pessoas com ensino médio e superior.
Potência e limites do voluntariado
O trabalho voluntário é reconhecido por mobilizar redes, oferecer assistência em crises e suprir lacunas onde políticas públicas falham. Porém, especialistas alertam para o risco de o voluntariado substituir responsabilidades estatais, deslocando para indivíduos — sobretudo mulheres — a resolução de problemas estruturais. A legislação federal que regula o tema é a Lei nº 9.608/1998, que define serviço voluntário como atividade não remunerada prestada a entidades públicas ou privadas sem fins lucrativos, mediante termo de adesão, sem vínculo empregatício.
Iniciativas públicas e exemplo municipal
No âmbito local, a Lei nº 5.080, sancionada em Contagem (MG), instituiu a Política Municipal do Voluntariado e do exercício da cidadania, com objetivos de estruturar, capacitar, articular e acompanhar ações voluntárias integradas a políticas públicas. O projeto Transformar Contagem, em andamento desde 2018, contabiliza mais de 38 mil horas de trabalho voluntário e a distribuição de mais de 100 toneladas de donativos, segundo dados do próprio programa.
Apesar de iniciativas estaduais e municipais, a atuação pública voltada ao voluntariado permanece fragmentada e, em muitos casos, dependente de governos locais, o que expõe uma lacuna na consolidação de políticas permanentes e abrangentes.
Desafios apontados
Entre as demandas colocadas para além do reconhecimento do voluntariado estão: reconhecer o valor econômico e social do cuidado; redistribuir responsabilidades entre homens, Estado e sociedade; garantir políticas públicas que não dependam exclusivamente da ação voluntária; e promover igualdade de acesso ao engajamento cívico. O debate sustenta que fortalecer o voluntariado exige, simultaneamente, problematizá-lo diante das desigualdades que o sustentam.


