As plantas carnívoras usam diferentes estratégias para atrair e prender suas presas — que vão além das armadilhas visíveis como a “boca” de uma Nephentes ou as mandíbulas da Dionaea, conhecida como apanha-moscas. Algumas espécies recorrem a gotas pegajosas que imitam orvalho, outras montam armadilhas submersas que sugam pequenos organismos, e há ainda aquelas com cavidades tipo jarro que retêm animais que caem dentro.
O desenvolvimento da chamada síndrome carnívora ocorreu como resposta a solos pobres em nutrientes, segundo Julio Santiago, mestrando em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para ele, a captura de animais complementa nutrientes escassos no ambiente, como nitrogênio e fósforo, enquanto a energia principal das plantas continua vindo da fotossíntese, destaca Paulo Gonella, professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
As presas mais frequentes são insetos, mas a dieta pode incluir larvas, vermes, protozoários e, ocasionalmente, animais maiores, como sapos, roedores e aves — estes últimos geralmente capturados de forma acidental, atraídos pelo néctar ou por insetos já presos. Espécies do gênero Nephentes, por terem formato de jarro, conseguem reter animais de maior porte em algumas situações. Quando a presa é muito grande, pode até causar apodrecimento da planta por excesso de nutrientes.
Tamanho e espécies
Entre as maiores espécies conhecidas estão a Drosera magnifica e a Nephentes rajah, que podem alcançar até 1,5 metro de altura. A primeira é nativa de Minas Gerais; a segunda, da ilha de Bornéu, no Sudeste Asiático.
Toxicidade e reação ao toque
Não há evidências de plantas carnívoras venenosas ou com interesse por carne humana. Tocar uma armadilha raramente ativa a captura de um dedo: a sinalização que desencadeia o processo está ligada à detecção de quitina, proteína presente no exoesqueleto dos insetos, explica Santiago.
Distribuição e risco de extinção
O levantamento “Conservação das plantas carnívoras na Era da Extinção” (2020), de Gonella e colaboradores, publicado na revista Global Ecology and Conservation, indica cerca de 860 espécies conhecidas no mundo. Os gêneros com maior número de espécies incluem Drosera, Utricularia e Nephentes. O Brasil abriga aproximadamente 130 espécies, ficando atrás apenas da Austrália, com cerca de 250.
Do total global, cerca de 193 espécies (20%) estão ameaçadas de extinção; 28 dessas ocorrem no Brasil e 13 são classificadas como criticamente ameaçadas. O gênero Philcoxia, restrito ao Brasil (Cerrado e Caatinga), preocupa por ter 100% das espécies em risco. Philcoxia cresce em areias claras, tem flores lilases e captura pequenos vermes por meio de armadilhas adesivas em folhas subterrâneas. Outro gênero com alto índice de risco é a Drosera, com 40% das espécies ameaçadas no país.
Segundo Gonella, a perda de habitat para agricultura é um dos principais fatores por trás das ameaças: a conversão de áreas e o uso de fertilizantes e pesticidas alteram a composição do solo, facilitando a invasão de outras espécies e reduzindo os locais adequados para plantas carnívoras.
Reportagem apresenta ainda um infográfico com os tipos de armadilha e respostas a perguntas frequentes sobre essas plantas.
Fonte: G1


