Uma seca prolongada coloca em risco a safra de beterraba sacarina na França, maior produtor de açúcar da União Europeia, e contribui para alta nos preços do produto na Europa, dizem produtores e consultores do setor.
Produtores alertam que não há previsão de chuva nas principais regiões de cultivo nas próximas duas semanas. Segundo a associação francesa de produtores de beterraba, CGB, e seu presidente Franck Sander, “a água é fundamental para a beterraba sacarina. Se não chover nas próximas duas semanas, será catastrófico”. A agência meteorológica francesa, Météo France, não projeta precipitação nas planícies de beterraba ao redor de Paris e no norte do país até pelo menos 14 de julho.
O preço do açúcar branco subiu quase 10% na última semana, atingindo na quarta-feira a maior alta em nove meses e meio, segundo dados do mercado. A valorização foi impulsionada também pelo fenômeno climático El Niño na Ásia, que afeta safras globais. No início do ano, os preços haviam alcançado o menor nível em mais de cinco anos diante de oferta abundante, o que prejudicou os resultados das usinas açucareiras.
A situação das plantações na França é desigual: alguns campos exibem folhas ressecadas enquanto outras áreas mostram melhor desenvolvimento, disse Sander. Na avaliação da Comissão Europeia, divulgada em 26 de junho, a produção de açúcar da UE para a safra 2026/27 deve ficar em 14,13 milhões de toneladas métricas — uma queda de 15% em relação à safra 2025/26. A estimativa considera redução de 9% na área plantada e recuo de 6,5% na produtividade, com a maior queda de produtividade prevista justamente para a França. A Comissão também projeta retração na Alemanha e na Polônia, os outros dois maiores produtores do bloco.
Para o corretor e consultor independente do setor açucareiro Michael McDougall, “a seca na França ainda é bastante grave. Os baixos índices de chuva continuarão afetando o extremo oeste da Europa por pelo menos os próximos dez dias e, possivelmente, por duas semanas”.
Além da falta de chuvas, agricultores estão apreensivos com o avanço da doença do amarelecimento, que se seguiu a fortes infestações de pulgões no início da safra. O vírus causou grandes perdas em 2020 após a proibição pela União Europeia de alguns pesticidas neonicotinóides, usados para proteger as lavouras e considerados prejudiciais às abelhas. A França chegou a conceder isenções temporárias em 2021 e 2022, mas o benefício foi revogado pelo Conselho de Estado francês após decisão do tribunal superior da UE.
O Parlamento francês discute nesta semana nova isenção como emenda a um projeto de lei agrícola mais amplo. A ministra da Agricultura afirmou não se opor à medida, mas preferiria sua tramitação separada para reduzir o risco de rejeição do projeto maior. Uma decisão final é esperada ainda neste mês, porém, caso aprovada, a medida não teria efeito sobre a safra de 2026, porque os pulgões normalmente infectam as plantas na primavera e os sintomas aparecem no verão.


