Empresas americanas de grande porte enviaram manifestações ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) solicitando que produtos importados do Brasil fiquem de fora das tarifas adicionais propostas na investigação da Seção 301. As cartas, assinadas por grupos como Tesla, Nestlé, Coca-Cola e eBay, foram remetidas ao órgão no dia 1º de julho e apontam riscos à competitividade, às cadeias de suprimento e ao custo para consumidores norte-americanos caso as medidas sejam adotadas.
O USTR, responsável por formular a política comercial dos EUA e por conduzir investigações sobre práticas consideradas prejudiciais ao comércio americano, propôs alíquotas de 12,5% e outra de 25% sobre produtos brasileiros, alegando que o governo do Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os Estados Unidos. Na semana em que as empresas se manifestaram, iniciaram-se audiências públicas sobre o pacote tarifário.
O movimento empresarial ocorre em um contexto de forte tensão diplomática entre os dois países. Documentos enviados pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, indicam que o Itamaraty vê “risco” de uso de força militar por parte dos EUA, após Washington classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. Recentemente, o Departamento do Tesouro dos EUA congelou bens de duas pessoas e de quatro empresas brasileiras por supostas ligações com o PCC.
No detalhamento das solicitações, a Tesla pediu isenção para insumos industriais importados do Brasil, argumentando que, apesar de investir bilhões de dólares para nacionalizar e diversificar sua cadeia de suprimentos nas Américas, a transição exige tempo e certos componentes essenciais para veículos elétricos, robótica e baterias ainda não podem ser produzidos nos EUA com escala e qualidade suficientes. A montadora alertou que tarifas aplicadas mais rapidamente do que a capacidade de adaptação do mercado prejudicariam trabalhadores e consumidores norte-americanos.
A Nestlé requisitou inclusão na lista de isenções de dois produtos específicos: café instantâneo não aromatizado (café solúvel) e colágeno bovino. A empresa afirmou que o cultivo comercial de café em grão não é viável em escala no território continental dos EUA e que o Brasil é o principal exportador mundial de colágeno bovino, cuja oferta interna americana não supre a demanda do setor de saúde e bem-estar. A Nestlé também destacou que 96,7% de suas cadeias de suprimentos de commodities primárias foram avaliadas como livres de desmatamento até o fim de 2025.
A Coca-Cola pediu que permaneça a isenção já proposta para o suco de laranja de origem brasileira e que o limão e seus derivados sejam acrescentados à lista de produtos livres de tarifas, ou, alternativamente, que haja um período de transição. A companhia citou a queda da produção de laranja na Flórida — de 242 milhões de caixas em 2003/04 para estimativa de 12 milhões em 2025/26 — e afirmou que o Brasil passou a ser fornecedor suplementar crucial, além de ressaltar que a troca de fornecedores de cítricos exige tempo para testes de segurança alimentar.
Por fim, o eBay pediu ao USTR uma isenção categórica para produtos de segunda mão, usados e seminovos, argumentando que as tarifas foram concebidas para incidir sobre produção industrial e agrícola. A plataforma sustentou que itens usados já cumpriram seu ciclo de vida, que o fabricante original já foi remunerado e que a cobrança penalizaria revendedores e consumidores de baixa renda. O eBay também afirmou ser inviável exigir declarações precisas de país de origem para muitos artigos usados — estimando que cerca de 30% das roupas destinadas à revenda chegam sem etiquetas — o que elevaria custos burocráticos e operacionais para a alfândega e pequenos negócios.
As audiências públicas e a análise das manifestações seguem sob responsabilidade do USTR.
Fonte: G1


