As chamadas “emendas de liderança” movimentaram R$ 1,3 bilhão na Câmara dos Deputados em 2025 sem constar o nome do parlamentar responsável pelas indicações dos beneficiários, segundo levantamento da organização Transparência Brasil divulgado na segunda-feira (13). Em vez de apontar um deputado, essas designações aparecem apenas com a identificação de uma bancada partidária. O relatório inclui dados sobre Minas Gerais, que recebeu R$ 130.428.696 nesse tipo de repasse.
O que são as emendas de liderança e o alcance do problema
As emendas de comissão surgem na lei orçamentária como reservas genéricas e, após a sanção do orçamento, um parlamentar precisa indicar o beneficiário final. A Transparência Brasil identificou que, em muitos casos na Câmara, a indicação foi registrada apenas com a etiqueta da liderança partidária, sem revelar o autor real do pedido.
O estudo mapeou 16,6 mil indicações de beneficiários em 2025, que totalizaram R$ 11,7 bilhões em emendas de comissão. No Senado, as indicações — R$ 3,8 bilhões — estão associadas a senadores específicos. Na Câmara, dos R$ 7,9 bilhões movimentados, R$ 1,3 bilhão (16% do total) ficou sem autor identificado, atribuído apenas a sete bancadas.
O Progressistas concentrou a maior parcela desse montante, com R$ 427,7 milhões distribuídos em 464 indicações, mais da metade destinada ao Piauí. Outros partidos citados no relatório são União Brasil (R$ 288,7 milhões), Partido Liberal (R$ 254,3 milhões), Republicanos (R$ 218,5 milhões), Avante (R$ 30 milhões), Solidariedade (R$ 22 milhões) e Podemos (R$ 19 milhões).
Juliana Sakai, diretora-executiva da Transparência Brasil, destacou que líderes de seis das sete bancadas também assinam emendas em nome próprio, o que descaracteriza a hipótese de que a etiqueta genérica corresponderia à cota pessoal do líder. Para a organização, a pulverização dos recursos entre muitos municípios indica a existência de autores ocultos e a apropriação de parcelas maiores por caciques partidários.
Por que o dinheiro é difícil de rastrear
O relatório aponta duas causas principais. A primeira é histórica: as emendas de comissão ganharam protagonismo após a extinção, pelo STF, das emendas do relator-geral (RP9) em 2022. O modelo substituto (RP8) movimentou R$ 136,1 milhões em 2022, subiu para R$ 8,3 bilhões em 2024 e alcançou R$ 9,3 bilhões em 2025, incluindo restos a pagar. A Lei Complementar 210/2024 prevê que esses recursos sirvam a ações de interesse nacional ou regional, mas a Transparência Brasil constatou que eles foram fragmentados em destinos locais.
A segunda é técnica: não existe um identificador único que conecte cada indicação do Congresso à sua execução no governo federal. Sem esse código, os sistemas orçamentários não conseguem cruzar informações, e parte do rastro desaparece antes de chegar ao Portal da Transparência. A organização não conseguiu identificar os destinatários de R$ 821 milhões em emendas de comissão pagas em 2025, somando lideranças e autorias conhecidas.
O problema se agrava quando o governo executa diretamente os serviços: o registro passa a constar apenas da empresa contratada, e não do beneficiário final. Dois ministérios concentram 86% dos casos sem correspondência: Integração e Desenvolvimento Regional, com R$ 560,4 milhões (dos quais R$ 342 milhões pela Codevasf), e Agricultura e Pecuária, com R$ 155 milhões.
Levantamento parcial de 2026, com dados até 29 de maio, já soma R$ 373,8 milhões sem autor definido. Seis das sete bancadas de 2025 repetiram o modelo em 2026 (exceto o Solidariedade) e o PT passou a integrar a lista, com R$ 107,5 milhões vinculados à liderança. A área da saúde concentra o maior volume sem autoria clara: R$ 818 milhões distribuídos em 808 indicações a fundos municipais, seguida por turismo, esporte, integração regional e desenvolvimento urbano.
Minas Gerais na rota das emendas sem assinatura
Seis partidos encaminharam recursos sem assinatura para municípios mineiros em 2025, somando R$ 130.428.696. O Partido Liberal liderou em Minas com 109 indicações que totalizaram R$ 56,3 milhões; o Republicanos apresentou 70 indicações e R$ 37,1 milhões; os Progressistas, 11 indicações e R$ 14,5 milhões; União Brasil, 24 e R$ 11,4 milhões; Avante, 35 e R$ 10 milhões; e Podemos, 2 indicações e R$ 1 milhão.
O relatório identifica padrão de parcelas repetidas em municípios, sugerindo distribuição padronizada: o Avante enviou sete parcelas de R$ 250,1 mil e 11 de R$ 200,1 mil; o Partido Liberal trabalhou com lotes de R$ 500 mil (em nove municípios), R$ 300 mil (27) e R$ 200 mil (13); o Republicanos distribuiu R$ 250 mil em 11 cidades e R$ 100 mil em nove. A Transparência Brasil afirma que esse formato de lotes pequenos e padronizados afasta as emendas de seu propósito de ações estruturantes e que a ausência de autoria dificulta compreender a lógica das escolhas municipais.
Do total que o Republicanos destinou em emendas de liderança no país (R$ 218,5 milhões), R$ 37 milhões — 17% — foram para Minas Gerais, estado base eleitoral do deputado Gilberto Abramo, líder da bancada do partido na Câmara.
Veja o relatório completo da Transparência Brasil aqui. Fonte original: Paranaibamais.
Desdobramentos judiciais e menção a Eduardo Cunha
Enquanto a Transparência Brasil divulgava o levantamento, a Justiça avançou em investigação sobre emendas parlamentares envolvendo o ex-deputado Eduardo Cunha. O ministro Flávio Dino, do STF, assinou em 6 de julho e tornou pública em 12 de julho decisão que bloqueou R$ 6,1 milhões em bens de Cunha. A medida integra a Operação Transparência, que também atingiu bens de Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal.
Segundo a decisão, há indícios de que Cunha, mesmo sem mandato desde 2016, teria influenciado a destinação de verbas públicas com o apoio de uma servidora da Câmara. A Polícia Federal descreve um esquema em que Cunha atuava como peça central na definição e no remanejamento de emendas, com prejuízo estimado em mais de R$ 6 milhões. Mensagens do celular da assessora Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, mostram Cunha indicando municípios, trocando destinos de recursos e definindo autorias de emendas que parlamentares em exercício formalizavam em seu nome. A PF classifica a atuação como desvio de finalidade.
Entre as cidades citadas pela PF está Pedrinópolis (Triângulo Mineiro), que teria recebido R$ 60.378 nesse esquema. A decisão menciona ao menos 29 indicações para municípios mineiros, somando mais de R$ 6,1 milhões, atribuídas ao roteiro investigado.
O ministro Flávio Dino afirma que os diálogos retratam Cunha atuando como líder partidário, escolhendo valores e municípios na tentativa de formar base eleitoral em Minas Gerais, onde pretende concorrer a deputado federal. A decisão também reproduz trecho em que Cunha reclama de impasses com prefeitos mineiros ao pedir trocas de emenda.
A defesa de Eduardo Cunha negou irregularidades na destinação de emendas parlamentares e afirmou que o ex-presidente da Câmara não exerceu influência ilegal sobre recursos do Orçamento.


