TRANSMISSÃO: nos canais da BBC (YouTube)
Documentário investiga circulação de imagens íntimas gravadas sem consentimento
Um documentário da BBC revelou uma rede online em que homens filmavam secretamente mulheres — muitas vezes parceiras — e divulgavam essas gravações em fóruns e grupos criptografados. Em Hunting the Spycammers, a apresentadora Jess Davies e o jornalista investigativo Liam Connell infiltraram-se em sites de voyeurismo e salas de bate-papo que trocam dicas sobre como capturar e difundir imagens não consensuais.
Davies, que já teve fotos suas feitas sem autorização compartilhadas em um grupo privado, descreveu a descoberta como uma violação profunda. As repórteres encontraram relatos de câmeras escondidas em quartos, banheiros, vestiários e até dispositivos disfarçados de objetos cotidianos — como canetas, aromatizadores e tomadas — usados para gravar mulheres sem que soubessem.
A investigação mostrou ainda a existência de comunidades que comemoram e se vangloriam das gravações, além de um grupo com cerca de 32 mil membros que postava fotos de esposas e parceiras. Usuários nas plataformas acessavam links que levavam a chats criptografados, onde circulavam orientações para filmagens clandestinas. Davies afirmou que, nesses espaços, as vítimas eram tratadas como “presas” e que a falta de consentimento parecia ser parte da motivação dos perpetradores.
Organizações de apoio apontam crescimento dos relatos. A entidade britânica Refuge registrou aumento de 78% nas denúncias de abusos cometidos com dispositivos tecnológicos em um ano. A Welsh Women’s Aid alertou que é difícil dimensionar o problema porque muitas vítimas nem sabem que foram gravadas.
Refuge pediu regulamentação mais rigorosa sobre dispositivos de vigilância e capacitação policial para identificar e investigar esses casos, além de ações rápidas por parte das empresas de tecnologia para remover conteúdo e fornecer informações às autoridades. A organização ressaltou que dispositivos baratos e acessíveis tornam essa forma de controle mais difundida.
No plano legal, o documentário detalha diferenças entre jurisdições. No Reino Unido, filmar em espaços públicos nem sempre é crime, mas a captação de imagens íntimas sem consentimento pode configurar voyeurismo ou ser punida quando destinada a causar assédio. O governo britânico informou que já é ilegal compartilhar imagens íntimas sem consentimento e que medidas da Estratégia sobre a Violência contra Mulheres e Meninas (VAWG) avançam para criminalizar a captação de imagens íntimas sem autorização, inclusive por meio da instalação de equipamentos.
No Brasil, o artigo 218-C do Código Penal torna crime oferecer, transmitir, vender, distribuir, publicar ou divulgar material com nudez ou pornografia sem consentimento. A pena prevista é de um a cinco anos de reclusão, com aumentos previstos quando a divulgação tiver fins de vingança, humilhação ou for praticada por pessoa em posição de autoridade.
O documentário destaca ainda como a circulação dos arquivos agrava os danos às sobreviventes, que passam a conviver com a perda de privacidade e insegurança mesmo em suas casas. A produção está disponível nos canais da BBC no YouTube.
Fonte original: G1


