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sábado, outubro 10, 2026

Tarifas dos EUA já pressionam empresas brasileiras e podem afetar emprego e preços via dólar

Tarifaço dos EUA e efeitos sobre exportações brasileiras

As tarifas anunciadas pelos Estados Unidos em 2026, defendidas pela administração de Donald Trump como forma de proteger a indústria doméstica, já tiveram impacto sobre os preços ao consumidor americano e passaram a afetar empresas brasileiras que exportam para aquele mercado. Um estudo do Federal Reserve de Nova York divulgado em 2026 estimou que as tarifas acrescentaram 2,9 pontos percentuais à inflação dos produtos comprados pelos americanos até fevereiro do mesmo ano.

Em fevereiro, uma tarifa global de 10% sobre todos os produtos importados foi estimada pelo levantamento do Fed de Nova York como capaz de elevar os preços ao consumidor em 2,6% no prazo de um ano. No caso do Brasil, medidas comerciais anunciadas em julho aplicaram sobretaxas de 12,5% a 25% para diferentes grupos de produtos. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as medidas combinadas atingem 23,1% das exportações brasileiras para os EUA, sendo 16,5% sujeitas à sobretaxa acumulada de 37,5%.

Calçados: queda de receitas e risco de perdas de empregos

O setor calçadista é um dos mais expostos às novas tarifas. Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil exportou 62,45 milhões de pares de calçados, gerando US$ 541,45 milhões — recuos de 7,5% no volume e 16,8% na receita ante o mesmo período de 2025, segundo a Abicalçados. Apenas em agosto, saíram 7,13 milhões de pares por US$ 70,8 milhões, quedas de 6,6% e 8,1%, respectivamente.

Nos primeiros oito meses do ano, as vendas brasileiras de calçados aos EUA somaram 7,38 milhões de pares por US$ 120,5 milhões: volume 4,1% menor e receita 22,8% inferior à de 2025. O preço médio dos calçados exportados aos EUA caiu 35,4% em agosto, para US$ 17,20, movimento atribuído pela entidade à mudança no perfil dos produtos e à retração das categorias de maior valor, como calçados de couro. A Argentina também reduziu compras: nos oito meses, exportações brasileiras para aquele mercado caíram 51,6% em volume e 55,6% em receita.

A Abicalçados revisou para baixo sua projeção e hoje estima queda de 7,1% nas exportações de calçados em 2026, contra projeção anterior de retração de 3,6%. Ao mesmo tempo, as importações de calçados no Brasil aumentaram: entraram 33 milhões de pares entre janeiro e agosto, alta de 9,6%, com valor subindo 11%, para US$ 429,7 milhões, e com China, Vietnã e Indonésia respondendo por cerca de oito em cada 10 pares.

Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados, disse que a indústria enfrenta um “efeito pinça”: perda de mercado nos EUA e concorrência de importados no mercado interno. A entidade estima possível perda de mais de 5 mil empregos diretos no segundo semestre caso as tarifas sejam mantidas, embora esse número seja uma projeção e não represente demissões já ocorridas. Dados da Abicalçados mostram saldo positivo acumulado de 1.740 postos até julho, com saldo negativo de 387 vagas apenas em julho.

Casos de empresas e adaptação

A Rafarillo, fábrica de Franca (SP) com cerca de 150 funcionários, precisou renegociar contratos com compradores americanos, reorganizar linhas de produção, buscar fornecedores alternativos e reduzir pessoal. Segundo André Ferreira, representante de comércio exterior da companhia, houve ajustes na cadeia produtiva e negociação de pedidos menores enquanto a empresa tenta ampliar vendas em outros mercados, como América Latina, Europa, África e Ásia.

Açúcar e etanol: efeitos variam por produto

No setor sucroenergético, o açúcar brasileiro foi incluído entre os produtos sujeitos à sobretaxa adicional de 25% destinada ao Brasil, enquanto o etanol está no centro de uma disputa comercial mais ampla. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) sustenta que a política brasileira para biocombustíveis segue regras da Organização Mundial do Comércio e nega discriminação.

Para o açúcar, que já enfrenta cotas tarifárias e restrições de acesso ao mercado americano, a nova sobretaxa soma-se a barreiras pré-existentes. Para consumidores no Brasil, não há relação automática entre a tarifa nos EUA e preços internos: volumes redirecionados ao mercado doméstico podem aumentar oferta e pressionar preços para baixo, mas o efeito depende do volume redirecionado, preços internacionais, câmbio e condições de oferta e demanda. Caso as exportações caiam muito, usinas e fornecedores podem ver redução de receitas, investimentos e empregos, com efeitos em transportadoras e demais elos da cadeia.

Máquinas e equipamentos: mercado interno fraco agrava cenário

A indústria de máquinas e equipamentos enfrenta simultaneamente queda do mercado doméstico e pressão externa. No primeiro semestre de 2026, o faturamento do setor caiu 13,6% e as vendas internas recuaram 17%, segundo a Abimaq, enquanto as exportações cresceram 12,7% no período. José Velloso, presidente-executivo da Abimaq, afirma que a fraqueza do mercado interno — marcada por juros elevados e baixo investimento — é hoje o principal fator por trás das demissões, com impacto maior do que o tarifaço para muitas empresas.

O faturamento acumulou queda de cerca de 17% nos últimos quatro anos, apesar do avanço das exportações, e segmentos como máquinas agrícolas e colheitadeiras registraram retrações de 25% e 40%, respectivamente, o que já levou ao fechamento de fábricas. Segundo a Abimaq, os EUA compraram cerca de US$ 3,2 bilhões em máquinas e equipamentos brasileiros em 2025.

Efeito em cadeia e canais para chegar ao consumidor

O impacto das tarifas pode se espalhar pela cadeia produtiva: redução de pedidos para exportadores pode significar menor demanda por aço, componentes e serviços de fornecedores nacionais, além de menor gasto com transporte. Por isso, empresas que nunca exportaram diretamente podem sofrer pela queda nas vendas de seus clientes. A integração entre cadeias produtivas brasileira e americana também pode fazer com que aumento de custos atinja empresas dos dois países, segundo a Abimaq.

Para o consumidor brasileiro, o efeito direto sobre preços tende a ser limitado no curto prazo, porque a tarifa é cobrada na entrada dos produtos nos EUA e paga pelo importador americano. Mecanismos possíveis incluem: exportadores aceitando margens menores para manter contratos; redirecionamento de volumes ao mercado interno, o que pode pressionar preços para baixo; ou redução de produção e empregos quando não há mercados alternativos. Outro canal indireto é o câmbio: piora nas perspectivas de comércio exterior pode aumentar a percepção de risco e pressionar o real, elevando o custo de insumos importados e podendo influenciar a inflação.

André Matos, CEO da MA7 Capital, avalia que o impacto do tarifaço é prioritariamente setorial e regional e não deve representar um choque amplo ao PIB. Segundo o MDIC, os EUA responderam por 10,8% das exportações brasileiras em 2025; no acumulado de janeiro a agosto de 2026, a participação caiu para 9,6%. Matos acrescenta que parte das vendas deslocadas dos EUA já foi absorvida por outros destinos, especialmente na Ásia, e que juros elevados representam um freio mais severo ao crescimento do que as tarifas. Ele observa ainda que a recuperação de mercados perdidos pode levar anos, e que, no curto prazo, o efeito sobre o consumidor brasileiro tende a ser mais via emprego e câmbio do que por alta direta de preços.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
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Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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