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sábado, outubro 24, 2026

Temas como financiamento do SUS, ensino de matemática, El Niño e população em situação de rua ficaram à margem das campanhas

Os candidatos à Presidência da República registraram planos de governo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas, na campanha de 2026, temas considerados centrais para políticas públicas receberam pouca atenção. O g1 conversou com especialistas para identificar quatro tópicos que ficaram em segundo plano: o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) diante do envelhecimento populacional; a queda no desempenho em matemática no ensino médio; os riscos associados a um El Niño intenso; e a situação da população em situação de rua. Alguns desses pontos foram abordados de forma limitada no debate presidencial exibido pela TV Globo em 23 de outubro.

Financiamento do SUS e envelhecimento

A Constituição de 1988 garante saúde como direito de todos, papel exercido pelo SUS, responsável por vacinação, distribuição gratuita de medicamentos, bancos de sangue e de leite, vigilância sanitária e monitoramento da qualidade da água. O governo federal aplica, por lei, no mínimo 15% de sua receita líquida em saúde; para 2026, o valor previsto é de R$ 254,93 bilhões, segundo o Portal da Transparência.

A gestão do sistema é compartilhada: prefeituras organizam e executam ações, estados formulam políticas e dão apoio técnico, e o governo federal faz a coordenação nacional conforme o Plano Nacional de Saúde. Para Rudi Rocha, professor da FGV EAESP, o envelhecimento da população — com expectativa de vida de 76,6 anos no Plano Nacional de Saúde de 2024 — exigirá mais gastos com cirurgias, medicamentos contínuos, tratamentos de câncer e internações prolongadas. Um estudo citado por Rocha indica que o gasto com saúde, que chegou a 9,7% do PIB até 2021, precisaria subir para 12,5% até 2060 para atender à demanda.

Além disso, a lei sancionada em janeiro de 2024 determina revisão anual, em dezembro, da tabela do SUS, que define os valores pagos pelos serviços.

Matemática e ensino médio

Levantamento do Todos pela Educação sobre resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) entre 2005 e 2025 aponta retrocesso no ensino médio, sobretudo em matemática. Priscila Cruz, presidente-executiva da organização, relaciona o problema à formação de professores e à menor presença da matemática no cotidiano dos estudantes — diferentemente da língua portuguesa, que é usada fora da escola.

Em 2025, menos de um em cada dez estudantes do ensino médio apresentou aprendizagem adequada em matemática. O percentual com desempenho abaixo do básico foi de 58,6% em 2025, praticamente estável em relação aos 59,0% de 2023 e superior aos 51,7% de 2019. Em Língua Portuguesa, o índice de aprendizagem adequada é maior: 31,2%.

El Niño e clima mais desequilibrado

Fenômenos climáticos como o El Niño têm alterado padrões de chuva e temperatura no Brasil, mas prevenção, preparação urbana e mitigação dos efeitos não foram tema central das campanhas presidenciais. Projeções de cientistas indicam que o El Niño pode se estender até março de 2027 e tem potencial para ser um dos mais intensos das últimas décadas.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicou, em boletim deste mês, probabilidade superior a 95% de El Niño muito forte entre o fim de outubro e dezembro. As projeções apontam chuva acima da média no Sul, redução de precipitação em partes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e temperaturas elevadas em quase todo o país. Dados da Agência Nacional de Águas (ANA) em outubro mostraram que 75% do território apresentava algum grau de seca em setembro, ante 67% no mês anterior, com intensificação em 14 estados; no Nordeste, 96% do território enfrentava condições de seca.

O climatologista Carlos Nobre alerta para aumento de mortes por ondas de calor — mais de 500 mil por ano no mundo, entre 10 mil e 14 mil no Brasil segundo suas estimativas — e para a vulnerabilidade de populações que vivem em áreas sujeitas a deslizamentos e enchentes. O Cemaden estima que 10 milhões de brasileiros residem em áreas de risco por chuva excessiva, sendo 2 milhões em zonas de altíssimo risco.

População em situação de rua

Estudo do Ipea descreve a situação de rua como fenômeno complexo e de difícil mensuração. Levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da UFMG, apontou 394.863 pessoas nessa condição. O monitoramento utiliza dados do Cadastro Único (CadÚnico) do Ministério do Desenvolvimento Social.

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e o IBGE anunciaram a realização do primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, com previsão de conclusão da pesquisa em 2028. O observatório aponta lacunas institucionais para elaboração e avaliação de políticas públicas.

O coordenador do observatório, André Luiz Freitas Dias, analisou os programas de governo de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação ao tema: não identificou menções específicas no programa de Flávio Bolsonaro; no programa de Lula há previsão de apoio a populações vulnerabilizadas, incluindo a população em situação de rua, por meio do fortalecimento da rede pública de proteção, do direito à cidade, da inclusão social e do fortalecimento de políticas existentes. Dias também destaca que, enquanto legislador, Flávio Bolsonaro não apresentou iniciativas voltadas a garantias de direitos dessa população, e que o governo Lula criou a Política Nacional de Atenção à População em Situação de Rua em seu segundo mandato e desde 2023 adotou medidas como o fortalecimento do CadÚnico.

Para o especialista em políticas públicas Marco Natalino, o tema não ganhou espaço na campanha presidencial porque os candidatos priorizaram a pauta de segurança em termos mais amplos, sem incluir medidas específicas para a população em situação de rua.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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