Vítimas de supostas fraudes cometidas por construtoras relataram obras abandonadas mesmo após a liberação de centenas de milhares de reais por meio de financiamentos habitacionais da Caixa Econômica Federal. Casos semelhantes foram registrados em diferentes estados e envolvem denúncia de documentos falsificados e medições de progresso das obras incompatíveis com a realidade.
Em um dos relatos, Marcela Teles e o marido Izael Mendes contrataram um financiamento pela Caixa entre R$ 400 mil e R$ 500 mil para erguer a casa da família. Embora tenham mantido os pagamentos das parcelas por dois anos, a construção foi interrompida e nunca chegou perto da conclusão prevista. Documentos apresentados pela construtora Prumo indicavam que mais de 84% da obra estaria concluída, informação contestada por perícia técnica que apontou que menos da metade do imóvel havia sido construída. Laudos de progresso continham assinaturas atribuídas à cliente que a perícia considerou falsificadas.
Outro casal, Guilherme e Bruna Both, relata ter contratado um financiamento de R$ 290 mil em 2022. Segundo eles, o representante da construtora Vitro Viana também se apresentava como ligado ao banco, o que gerou confiança. A construtora recebeu mais de R$ 200 mil e, depois, pediu mais recursos sob a alegação de insuficiência dos valores já pagos. Ao checar os documentos encaminhados à Caixa, o casal identificou inconsistências em etapas marcadas como quase concluídas — como cobertura e instalações elétrica e hidráulica —, que não existiam na obra. A construção foi abandonada sete meses após o início e deixou prejuízos que extrapolaram o montante financiado; o caso também causou impacto emocional, segundo os atingidos.
No Pernambuco, Camyla Lira e Daniel passaram uma década planejando a casa própria. A obra foi interrompida enquanto Camyla estava grávida; o dono da construtora Multicons foi condenado por estelionato após investigação que apontou inflação de valores apresentados ao banco, com apropriação da diferença. O prejuízo do casal ultrapassou R$ 126 mil. Mesmo assim, decidiram retomar a obra por meios próprios, com venda de bens e apoio de familiares.
Posicionamentos
A construtora Âmbar Prumo afirmou, em nota, que todas as obras teriam sido conduzidas conforme as normas da Caixa e disse que responderá a eventuais acusações na Justiça. Pedro André Marchesi Cecegolo, ex-funcionário da Caixa e ligado à Vitro Viana, recorre na Justiça do Trabalho contra a demissão e nega ter causado prejuízo financeiro à instituição. O dono da Multicons, condenado por estelionato, declarou que os valores recebidos foram integralmente aplicados na obra e também recorre da decisão.
As famílias continuam com obras inacabadas e dívidas decorrentes dos financiamentos, enquanto investigações e processos judiciais seguem em andamento.
Fonte: G1


