Uma manifestante contrária ao Brexit durante protesto em frente ao Palácio de Westminster, em Londres, em 5 de março de 2025.
Dez anos depois do referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, o tema do reingresso voltou a ocupar o centro do debate político britânico. A questão ganhou destaque após declarações do ministro do Comércio, Chris Bryant, que disse esperar a reentrada plena do país no bloco em algum momento futuro.
Em entrevista no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, Bryant afirmou que o Brexit provocou “enormes problemas para a economia do Reino Unido” e manifestou a esperança de que a nação seja “recebida de volta ao coração da Europa” ainda durante sua vida. Ao mesmo tempo, o ministro ressaltou que essa não é uma mudança iminente: “Não vamos fazer isso neste verão”, disse.
Bryant também citou impactos concretos nas relações comerciais, apontando que cerca de 16 mil empresas britânicas deixaram de exportar para a Europa desde a saída do bloco. Apesar de esforços para fortalecer laços com países como Coreia do Sul, Turquia e Suíça, o ministro destacou que a União Europeia permanece como o principal parceiro comercial do Reino Unido, respondendo por cerca de 47% do comércio.
O debate ganhou novo impulso com as declarações do ex-ministro da Saúde Wes Streeting, considerado possível sucessor do primeiro-ministro Keir Starmer. Streeting classificou a decisão de sair do bloco como “um erro catastrófico”, argumentando que o país ficou “menos rico, menos influente e menos capaz de controlar seu próprio destino” desde então, e defendeu a retomada da discussão sobre o Brexit.
Starmer tem adotado postura mais prudente. Embora tenha buscado maior aproximação com Bruxelas desde que assumiu o governo, evita defender formalmente o retorno à União Europeia, afirmando que a reentrada só poderia ocorrer “anos adiante” e que, por ora, seu foco é estreitar laços com o bloco por interesse nacional.
A reabertura do tema ocorre em meio a um cenário de instabilidade política. Após resultados considerados abaixo do esperado do Partido Trabalhista em eleições locais recentes, vários parlamentares passaram a exigir que Starmer deixe o cargo ou apresente um cronograma de saída. As opiniões dentro do partido também estão divididas: o prefeito de Manchester, Andy Burnham, e outros líderes alertaram contra a reabertura imediata do debate, enquanto figuras como a ministra da Cultura Lisa Nandy e o deputado Dan Carden manifestaram reservas sobre transformar o assunto em tema central.
Na oposição, a líder conservadora Kemi Badenoch criticou a ideia de reabrir uma discussão que considera encerrada, e o eurocético Nigel Farage afirmou que Streeting pretende “arrastar” o país de volta ao bloco.
O Reino Unido deixou formalmente a União Europeia em 2020, após quatro anos de negociações que seguiram o plebiscito de 2016, no qual 51,9% dos eleitores votaram pela saída. Desde então, Londres e Bruxelas vêm reconstruindo a relação: em 2025 foi assinado um acordo para ampliar cooperação em defesa e segurança e flexibilizar restrições ao comércio de alimentos, e uma nova cúpula bilateral está prevista para o verão europeu. Ainda que um retorno ao bloco pareça distante, as recentes declarações indicam que a hipótese deixou de ser tabu na política britânica.
Fonte: G1


