Uma linguagem nascida nas galerias de ferro
Originada no início do século 20 entre trabalhadores das minas de Itabira, a chamada Guinlagem do Camaco é uma forma de falar que embaralha fonemas para tornar frases inescrutáveis a quem não faz parte do grupo. A cidade natal do poeta Carlos Drummond de Andrade, que nasceu em 1902 e tem cerca de 113 mil habitantes na Região Central de Minas Gerais, também é o berço dessa prática linguística ligada à rotina das extrações de minério.
Segundo relatos de falantes e pesquisadores, o Camaco surgiu como um método de comunicação dos operários — muitos recém-libertos e analfabetos — para trocar informações sem que patrões, em grande parte ingleses, compreendessem. O procedimento básico consiste em inverter sons dentro das sílabas, o que transforma palavras e torna conversas praticamente indecifráveis para estranhos.
Exemplos citados por interlocutores: a frase “Você fala linguagem?” aparece como “Sovê lafa guinlagem” e “Guinlagem do Camaco” corresponde a “Linguagem do Macaco”. Há, porém, exceções: termos curtos às vezes geram formas menos previsíveis — “Não” vira “ônis” e “Qualquer” pode aparecer como “ualquiquelque”.
Função social e memória
Para moradores como o músico Rafael Formiga, a inversão fonética cria sentido coletivo e permite que falantes se entendam mesmo com variações locais. O historiador e museólogo Paulo Assuero, também praticante do Camaco, destaca a capacidade de construção e resistência daquela fala entre populações marginalizadas.
Mauro de Alvarenga conta que herdou o uso do Camaco dentro de casa: seus pais aprenderam com o avô, ferreiro que produzia peças para locomotivas das mineradoras. O hábito passou de geração a geração e ganhou outros espaços sociais — saiu das minas e passou a ser falado nas ruas, entre jovens e filhos que queriam conversar sem que pais ou forasteiros entendessem.
Documentário e estudos acadêmicos
O documentário Camaco (2022), dirigido pelo cineasta Breno Alvarenga, reconstrói a história dessa linguagem como instrumento de organização e resistência dos trabalhadores. O filme foi premiado no Festival de Gramado nas categorias “Melhor Curta Júri da Crítica” e “Melhor Montagem”.
O linguista Geuderson Marchiori, que abordou o Camaco em sua dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), classifica a fala como uma linguagem secreta ou jargão técnico, com registros de falantes que remontam à década de 1920. Em sua análise, o Camaco também funcionou como um território de resistência coletiva, comparável a um espaço de reorganização social.
Preservação e futuro
Em 2023, a Prefeitura de Itabira reconheceu a Guinlagem do Camaco como patrimônio cultural imaterial por meio de decreto. No entanto, até o momento não há ações concretas de preservação implementadas.
A cidade enfrenta também um desafio econômico: mais de 80% da atividade local depende da mineração, cuja exploração nas minas da região tem estimativa de paralisação em 2052. Para alguns moradores, inclusive artistas e pesquisadores, a manutenção e divulgação do Camaco podem ser elementos culturais importantes para a requalificação da identidade itabirana diante do esgotamento da extração mineral.
Entre os que defendem a preservação está a musicista Nana Mendonça, que desenvolveu oficinas sobre a linguagem, e o próprio cineasta Breno Alvarenga, que aponta o Camaco como exemplo de resistência cultural e potencial recurso para reinventar o futuro da cidade.


