Resumo: Sistemas de monitoramento que usam inteligência artificial (IA) passaram a anunciar capacidade de identificar comportamentos fora do padrão e emitir alertas capazes de antecipar furtos e outras ocorrências. A tecnologia tem atraído interesse de empresas privadas, mas também suscita preocupações sobre privacidade, vieses e falta de regulação.
O que são e como funcionam
Soluções conhecidas como policiamento preditivo convertem imagens de vídeo em metadados — sequências numéricas que descrevem movimentos e padrões — para reconhecer o que é considerado comportamento “normal” em um local. Quando a sequência analítica diverge do padrão, o sistema gera um alerta para revisão humana, segundo explicações de desenvolvedores da área.
No modelo apresentado pela empresa NoLeak, a câmera envia imagem que é traduzida em metadados; o software aprende os padrões após cerca de duas semanas de análise e passa a sinalizar mudanças relevantes. A ferramenta, segundo a empresa, não age automaticamente sobre a cena: os alertas chegam a um sistema de gestão de vídeo e cabe ao operador decidir medidas, como acionar a polícia ou a equipe de segurança privada.
Uso e alcance comercial
A NoLeak afirma ter mais de 5 mil câmeras conectadas e 100 clientes, entre indústrias e condomínios. A empresa diz que a tecnologia reduz o cansaço dos operadores e possibilita monitorar até dez vezes mais câmeras com o mesmo efetivo. Outras companhias que desenvolvem soluções semelhantes incluem Actuate, AxxonSoft e Coram.
Além da segurança patrimonial, fornecedores destacam aplicações industriais, como verificação do uso de equipamentos de proteção individual e acompanhamento de linhas de produção para identificar paradas não programadas.
Riscos e críticas
Especialistas alertam para o risco de ampliação da vigilância sobre cidadãos que não cometeram crimes e para a opacidade desses sistemas. Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisas do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH), destaca que erros podem afetar pessoas comuns — por exemplo, levar a abordagens indevidas — e que é difícil avaliar precisão e vieses sem estudos independentes.
Casos internacionais já apontaram problemas: ferramentas que cruzavam dados históricos de crimes orientaram policiamentos em áreas de menor renda, resultando em aumento de abordagens nessas comunidades. O sistema PredPol, que usava datas, horários e locais de ocorrências anteriores para direcionar rondas, foi abandonado pela polícia de Los Angeles em 2020 após críticas de grupos ativistas sobre eficácia e vigilância excessiva.
Regulação no Brasil
No país não existe legislação específica sobre policiamento preditivo. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) regula tratamento de dados sensíveis, como biometria facial. Em 2025, o Ministério da Justiça e Segurança Pública publicou uma portaria permitindo o uso de IA por polícias, mas exigindo revisão humana em casos com possível risco a direitos fundamentais.
Há também um projeto de lei em tramitação no Congresso que pode classificar como de alto risco sistemas de IA usados por forças policiais para analisar grandes volumes de dados e perfis comportamentais. O texto, aprovado no Senado e em discussão na Câmara, prevê supervisão humana, avaliação de impacto, direito à explicação às pessoas afetadas e medidas para evitar discriminação.
Fonte: G1 – Câmeras com IA prometem prever crimes antes que aconteçam, mas acendem alerta sobre privacidade


