Empresas acrescentam mecanismos para marcar ou denunciar publicações feitas com inteligência artificial
Uma série de plataformas digitais anunciou recentemente ferramentas para identificar ou permitir que usuários denunciem conteúdos produzidos por inteligência artificial (IA). A mudança responde a pressões regulatórias, ao esforço de melhorar a qualidade do feed e a preocupações com o impacto nos modelos de negócio, afirmam especialistas ouvidos pelo G1.
Pesquisadores e professores citados na reportagem destacam que a facilidade de uso das ferramentas de IA tem levado à produção em massa de materiais de baixa qualidade — textos, imagens, vídeos e áudios criados rapidamente apenas para atrair visualizações. Esse volume de conteúdo de valor questionável é conhecido no meio como “AI slop”.
Entre as iniciativas anunciadas estão:
- LinkedIn: passou a exibir um botão que permite denunciar postagens como sendo geradas por IA, identificado em português como “Parece lixo de IA”. A empresa afirma estar desenvolvendo classificadores para reduzir a visibilidade desse tipo de conteúdo nas recomendações.
- Substack: lançou uma funcionalidade que estima, em porcentagem, quanto de um texto foi escrito por IA, em parceria com o software Pangram, indicando se o material foi totalmente humano, parcialmente assistido ou totalmente gerado por IA.
- Anthropic/Claude: a IA rival do ChatGPT anunciou que passaria a sinalizar textos e imagens produzidos por sua tecnologia para se adequar ao AI Act da União Europeia.
- Snapchat: informou que deixará de recomendar publicações totalmente geradas por IA no Spotlight, mantendo elegíveis para recomendação conteúdos que tenham sido editados ou aprimorados com suas ferramentas de IA, os quais incluirão indicadores de transparência.
- Google: divulgou que mais empresas adotariam o SynthID, tecnologia para marcar imagens e vídeos gerados por IA, em parceira com a OpenAI, Kakao e ElevenLabs.
- YouTube: passou a retirar monetização de vídeos genéricos e repetitivos criados por IA, segundo o portal Mashable, esperando que o conteúdo ofereça histórias, explicações ou ensinamentos que agreguem ao público.
- TikTok e Instagram: já permitem que usuários indiquem quando uma publicação foi criada com auxílio de IA.
O artigo 50 do AI Act da União Europeia, que entrou em vigor em 2 de agosto, exige que conteúdos gerados ou manipulados por IA sejam claramente identificados. Especialistas ouvidos pelo G1 interpretam esse dispositivo como um dos principais motivadores da onda de anúncios de rotulagem e detecção feita por grandes plataformas entre maio e julho.
Edney Souza, professor da educação continuada da ESPM, observa que as empresas grandes que atendem ao mercado europeu tinham esse prazo e, por isso, intensificaram lançamentos de ferramentas de identificação próximos à entrada em vigor do regulamento. Segundo ele, além de razões éticas, há motivações comerciais e jurídicas: excesso de publicações genéricas reduz o valor de assinaturas pagas e aumenta riscos regulatórios e reputacionais.
Elizabeth Saad, professora da ECA-USP e pesquisadora de IA, afirma que a rapidez com que pessoas aprendem a usar novas ferramentas acelera a produção de conteúdo e que plataformas tentam preservar a reputação de suas marcas ao reduzir a circulação de material de baixa qualidade. Ela cita o caso do Google Earth: a empresa retirou um recurso que gerava imagens a partir de registros de satélite depois que usuários passaram a criar cenas falsas de conflitos.
Especialistas apontam ainda que a disputa entre quem cria modelos de IA e quem desenvolve detectores é contínua. Cada geração de detectores tende a enfrentar modelos cada vez melhores em escapar da identificação, de modo que a infraestrutura de rotulagem e detecção deve continuar evoluindo e não se estabilizará em um padrão único num futuro próximo.
Fonte: G1


