Resumo: A instabilidade do conflito entre Estados Unidos e Irã e medidas adotadas no Brasil explicam por que os valores da gasolina e do diesel nas bombas ainda não recuaram, mesmo com oscilações recentes no preço internacional do petróleo.
A retomada de ataques entre EUA e Irã e o bloqueio naval americano no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo, pressionaram as cotações em julho. O barril do Brent fechou cotado a US$ 83,30 neste mês, segundo dados citados pela reportagem.
Apesar da alta de julho, o preço do petróleo permanece bem abaixo do pico registrado em abril, quando o Brent atingiu US$ 118,03. Entre o pico e a nova alta, a commodity chegou a cair para perto de US$ 70. No entanto, essa queda nas cotações internacionais não se traduziu imediatamente em redução nos preços dos combustíveis no Brasil.
Dados e impacto interno
Levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apontou que, desde o início da guerra, em fevereiro, os preços acumulam altas na ordem de aproximadamente 10% para o diesel e 5% para a gasolina.
Especialistas ouvidos pelo g1 atribuem a demora na queda a uma combinação de fatores: a permanência de incertezas sobre os rumos do conflito no Oriente Médio, a intervenção estatal com subsídios e a gestão de preços pela Petrobras em momentos críticos.
“A imprevisibilidade ainda dita os preços do petróleo e, consequentemente, do diesel e da gasolina. Ainda existem muitos pontos sensíveis a serem negociados entre os dois países”, afirmou Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Trégua frágil e preocupações com oferta
Embora um acordo preliminar para cessar hostilidades tenha sido assinado em meados de junho, a trégua já foi rompida diversas vezes, com novas trocas de ataques por mísseis e drones e acusações mútuas de violação do cessar-fogo. Após episódios de confrontos, houve interrupção das hostilidades e retomada de negociações com mediação do Catar e do Paquistão, que relataram avanços nas conversas.
Nos dias mais recentes, no entanto, nova onda de ataques voltou a colocar o acordo em risco. Além dos episódios bélicos, a administração Trump chegou a reassumir o bloqueio naval no Estreito de Ormuz e anunciou, em momento posterior, a intenção de cobrar um pedágio de 20% sobre a carga de navios que transitassem pelo canal — proposta que depois seria substituída por acordos comerciais e de investimento com países do Golfo.
Analistas também destacam que a demanda global segue elevada, influenciada pelo verão no Hemisfério Norte, quando o consumo de energia costuma subir nos Estados Unidos e na Europa. “Vivemos uma queda histórica nos estoques. Tanto a OCDE quanto os EUA apresentam níveis bastante baixos”, disse o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. Ele acrescentou que sinais concretos de fim do conflito seriam necessários para recuperar a normalidade logística na região e permitir a reconstrução de infraestruturas afetadas.
Medidas no Brasil que limitam quedas
No Brasil, o governo destinou mais de R$ 30 bilhões a medidas para conter o impacto da alta dos combustíveis sobre a inflação. A Petrobras também interveio em momentos críticos para não repassar imediatamente os aumentos ao consumidor final. Como efeito dessas ações, a elevação da commodity no exterior chegou de forma mais moderada aos postos e, consequentemente, criou menor espaço para recuos bruscos.
Quando o subsídio foi encerrado, a Petrobras reduziu o preço do diesel nas refinarias em R$ 0,35; porém, essa diminuição apenas compensou o fim do benefício, sem alterar os valores praticados às distribuidoras. O governo adiou ainda a decisão sobre a retirada do subsídio à gasolina diante da nova escalada do conflito.
Especialistas observam que o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina, de 30% para 32%, tem efeito limitado sobre o preço final. “Esse aumento é importante, mas, por si só, não deve se refletir em uma redução significativa da gasolina. O principal fator que vai determinar a alta ou a queda dos preços é a situação do mercado internacional e a forma como esse movimento se transmite aos produtos importados que chegam aos portos brasileiros”, afirmou Bruno Cordeiro.
O quadro atual indica que, enquanto persistirem incertezas sobre a estabilidade no Oriente Médio e medidas de proteção domésticas permanecerem em vigor, a queda significativa dos preços nos postos brasileiros tende a ser contida.


