Comunicações entre ministro do STF e ex-banqueiro aparecem em relatório da PF
Uma sequência de mensagens entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, voltou a colocar em evidência as apurações sobre o conglomerado financeiro. As conversas, obtidas pela Polícia Federal (PF) e divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, foram acessadas também pela TV Globo.
Segundo o material, Moraes e Vorcaro trataram da possibilidade de a PF deflagrar uma operação que poderia ter o ex-banqueiro como alvo. Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro pergunta ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. No dia 16, Vorcaro envia outro questionamento: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”. Ainda no dia 16, propõe um encontro: “às 14h então, na sua casa ou na minha?” e relata estar “perplexo”, escrevendo: “Muita sacanagem isso. Estou perplexo e indignado. Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta. De repente até melhor eu encarar de frente. Temos que dar um jeito de desarmar isso meu Deus”. Quarenta e oito horas após a primeira mensagem, na noite de 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso pela PF ao tentar embarcar em um jato particular no Aeroporto Internacional de São Paulo com destino final a Dubai.
O conteúdo das trocas integra um relatório encaminhado pela PF ao STF. O ministro André Mendonça determinou a retirada do sigilo do documento, que também foi remetido para manifestação da Procuradoria‑Geral da República (PGR).
Esquema investigado pela PF
Entre os exemplos citados pelos investigadores está a aquisição de títulos antigos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc): ativos comprados por cerca de R$ 850 mil teriam sido registrados como se valessem mais de R$ 10 bilhões. O Banco Central também detectou irregularidades em certificados de depósito bancário (CDBs) emitidos pelo Master, com inconsistências apontadas como incompatíveis com operações reais.
O Master teria colocado no mercado R$ 50 bilhões em CDBs prometendo remunerações acima do mercado, sem comprovar liquidez suficiente para honrar esses títulos futuramente.
Medidas administrativas e prisões
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do grupo Banco Master em 18 de novembro de 2025, citando “grave deterioração financeira, risco de insolvência, descumprimento de regras e de determinações da autoridade monetária”. A decisão ocorreu horas depois de o BC inviabilizar a venda do banco para a Fictor Holding, operação que previa injeção de R$ 3 bilhões.
Vorcaro foi preso inicialmente em 17 de novembro de 2025 e liberado por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF‑1). Em 4 de março de 2026, o ex-banqueiro voltou a ser detido preventivamente por ordem do ministro do STF André Mendonça, após a análise dos celulares apreendidos na primeira prisão, que, segundo as decisões judiciais, teriam indicado risco de destruição de provas, continuidade da lavagem de dinheiro e interferência nas investigações.
As investigações apontam suspeitas de gestão fraudulenta e estelionato, enquadradas no artigo 4º da Lei 7.492/86 e no artigo 171 do Código Penal, cujas penas previstas variam de 3 a 12 anos (gestão fraudulenta) e de 1 a 5 anos (estelionato).
O levantamento da PF e os diálogos entre Moraes e Vorcaro constam no relatório remetido ao STF e à PGR, cuja divulgação teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça.


