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quinta-feira, agosto 27, 2026

O aumento de pedidos de recuperação: por que grandes empresas brasileiras têm recorrido à Justiça em 2026

Empresas em dificuldade recorrem à recuperação judicial e extrajudicial

Varejistas e outras grandes companhias brasileiras — entre elas Habib’s, Casas Bahia, Marabraz, Braskem, Raízen, Oncoclínicas, Grupo Toki (Tok&Stok e Mobly), Grupo CVLB (Casa & Vídeo e Le Biscuit) e St. Marché — fizeram pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial somente em 2026, segundo reportagens e especialistas consultados. A tendência deve continuar, afirmam analistas.

Dados da consultoria RGF, especializada em reestruturação, mostram que o número de empresas em recuperação judicial cresceu 66% nos últimos três anos, chegando a 6.341 casos no segundo trimestre de 2026. Desse total, 21% são do varejo, 19,6% da indústria de transformação e 17,5% do agronegócio — os segmentos mais afetados.

Na recuperação judicial, todas as dívidas de uma companhia (trabalhistas, com fornecedores, bancos etc.) são renegociadas na Justiça; na recuperação extrajudicial, a empresa seleciona credores para negociar um acordo que depois é homologado pelo Judiciário. A Americanas está em recuperação judicial desde 2023; já a Oi teve falência decretada pela Justiça em 25 de agosto de 2026.

Fatores apontados por especialistas

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu que o varejo sofre com a alta da taxa de juros, por depender de crédito para compras a fornecedores e para vendas aos consumidores, mas negou que haja uma crise generalizada, em entrevista à Globonews em 21 de agosto.

Especialistas consultados pela BBC News Brasil enumeram três fatores centrais para a onda de recuperações, especialmente no varejo: a taxa básica de juros prolongadamente elevada — atualmente em 14% ao ano; erros de gestão, com cortes de posições gerenciais que concentraram decisões na alta diretoria; e mudanças no mercado de trabalho, com menos profissionais dispostos a construir carreira nas empresas e dificuldades de retenção de mão de obra qualificada.

Fabian Salum, professor titular e pesquisador da FDC, descreve a causa como de “composição híbrida”. Ele lembra que a alavancagem aumentou no pós-pandemia, período em que a Selic subiu de 2% para 15%.

O alto nível de inadimplência entre consumidores — 39% da população com dívidas — também reduz o consumo e pressiona receitas, segundo Salum. Com vendas mais baixas, empresas cortam investimentos e formação de gerência, o que compromete a capacidade de reação das companhias em dificuldade.

Cortes de pessoal e decisões tomadas durante a pandemia

Isabella Vasconcellos, professora da ESPM, afirma que muitas decisões tomadas entre 2020 e 2021 — como forte investimento em tecnologia e ampliação do comércio eletrônico — foram feitas sem considerar a possibilidade de alta sustentada da Selic. Entre 2020 e 2025, o Brasil eliminou 322 mil vagas de gerência e diretoria, segundo o Caged, resultando em um saldo negativo de 112 mil contratações nesses cargos.

Consultores alertam que cortes mal planejados podem desmontar a capacidade de recuperação das empresas. André Pimentel, da Performa Partners, cita o caso das Casas Bahia: antes da recuperação judicial havia mais de 1.000 lojas; foram fechadas 298 e demitidos 1.900 funcionários, com reintegração provisória determinada pela Justiça.

A psicóloga Betania Tanure, da BTA Associados, afirma que a tecnologia trouxe incertezas e levou a demissões que sobrecarregam quem fica, prejudicando qualidade e recuperação.

Impactos financeiros e governança

Vasconcellos alerta que a estrutura de capital seguirá pressionada com previsão de juros em dois dígitos ao menos até o fim de 2028, o que faz a despesa financeira consumir caixa mesmo quando há aumento de receita. Felipe Tanus, diretor de crédito da Allianz Trade Brasil, afirma que taxas de juros acima de dois dígitos elevam o risco de insolvência e destaca problemas de governança em casos como Americanas e a expansão mal calculada da Raízen.

Segundo Tanus, em pedidos de recuperação judicial, fornecedores clientes da Allianz Trade podem receber entre 90% e 95% do total em até 30 dias após o deferimento do pedido pela Justiça. Apesar de um crescimento de 6% nas vendas da companhia no primeiro semestre de 2026, o aumento de recuperações reduz e encarece limites de crédito no mercado.

O pesquisador Armando Castelar, do FGV IBRE, acrescenta que a situação macroeconômica atinge também as famílias, com salários corroídos por empréstimos consignados, o que pode pressionar por mais pedidos de recuperação e por eventual ação do Banco Central para reduzir a taxa de juros.

Fim da matéria.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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