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quinta-feira, outubro 22, 2026

Experimento de Milgram e réplicas mostram como a obediência reduz a responsabilidade pessoal e facilita atos cruéis

Em junho de 1961, um anúncio no jornal The New Haven Register recrutou voluntários para um suposto estudo de memória na Universidade Yale. O recrutamento, feito pelo professor Stanley Milgram (1933-1984), atraiu homens de diversas profissões sem exigir formação específica; 40 participantes participaram do experimento inicial, que media obediência, e não memória.

No laboratório, os participantes foram instruídos a aplicar choques elétricos em outro sujeito sempre que este errasse respostas em uma tarefa de “aprendizado”. Os choques eram simulados, mas 26 dos 40 participantes (65%) chegaram ao nível mais alto, considerado potencialmente letal. Réplicas do estudo mostraram resultados semelhantes mesmo quando a vítima era apresentada como portadora de problemas cardíacos ou suplicava por clemência.

Estudos posteriores adaptaram o procedimento para investigar quando e por que as pessoas obedecem a ordens imorais. Em 2009, o psicólogo Jerry Burger conduziu uma versão moderada do experimento, interrompendo o procedimento em um choque mais fraco; ainda assim, 70% dos participantes obedeceram até o ponto final do teste, sem diferença significativa entre homens e mulheres.

Uma réplica parcial realizada por Tomasz Grzyb, em 2015, também usou níveis máximos de choque mais baixos que o original e encontrou 90% de obediência, novamente sem diferenças relevantes por gênero. Após os testes, psicólogos conversaram com os voluntários para avaliar seu bem-estar; relatos incluíram angústia intensa de alguns participantes.

A professora Emilie Caspar, da Universidade de Ghent, investigou a base neural da obediência com choques reais, calibrados ao limite de dor tolerável da vítima, e técnicas como fMRI. Em cerca de 800 voluntários de diferentes países, apenas 21 (2,6%) recusaram-se a aplicar choques quando obedeciam ordens. Caspar e sua equipe observaram que, ao cumprir ordens, há redução da atividade em áreas cerebrais associadas à empatia, culpa e senso de responsabilidade; nessas condições, os choques também eram percebidos como menos dolorosos.

Pesquisadores identificaram fatores situacionais que favorecem a obediência. Burger ressaltou o papel da figura de autoridade — o experimentador, muitas vezes vestido com jaleco — que assumia a responsabilidade pelo procedimento, o que aliviava o senso de culpa dos participantes. Quando o experimentador afirmava que seria ele o responsável, voluntários relatavam sentir-se liberados para continuar. Estudos também mostram que o anonimato facilita comportamentos agressivos, fenômeno observado em pesquisas sobre abuso online publicadas em 2023 e 2026.

A proximidade da vítima influencia a resposta: nos estudos de Milgram, quando o “estudante” estava na mesma sala, a obediência caiu para 40%; se a mão da vítima tocava a do voluntário, apenas 30% obedeceram até o final. Outros mecanismos destacados incluem a tomada de decisão rápida em situação inédita, a tendência a seguir o comportamento de quem parece mais experiente na cena e a escalada gradual de pedidos (efeito “pé na porta”), que facilita aceitar pedidos cada vez maiores.

Pesquisadores sugerem medidas práticas para reduzir a obediência cega: planejar respostas antecipadamente, reservar tempo para refletir diante de ordens suspeitas, criar distância psicológica da autoridade, questionar a legitimidade das instruções e construir sistemas que limitem o poder concentrado. Estudos sobre o genocídio de 1994 em Ruanda também indicam que modelos morais na infância aumentam a probabilidade de atuação ética em situações extremas, ilustrando que a presença de exemplos morais pode incentivar a desobediência a ordens imorais.

Apesar da força dos resultados sobre obediência, houve participantes que resistiram ao longo da história dos estudos. Alguns declararam, durante os experimentos originais, que não prosseguiriam e, em relatos posteriores, atribuíram sua recusa a fatores pessoais como criação que questionava autoridades ou envolvimento em ativismo.

O legado das pesquisas de Milgram e suas réplicas permanece central para entender como o contexto social e a estrutura de autoridade podem levar indivíduos comuns a cumprir ordens que conflitam com valores pessoais.

G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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