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sexta-feira, março 6, 2026

Solidariedade em Itumbiara e ataques nas redes marcam repercussão do caso

Sete dias após a tragédia em Itumbiara, centenas de mulheres vestidas de branco saíram às ruas na noite desta quinta-feira (19) para prestar solidariedade à mãe das crianças mortas e à família. A mobilização ocorreu após uma missa em memória de Miguel e Benício e contrasta com a onda de ataques e exposição nas redes sociais direcionada à mulher da família.

Um vídeo do ato, divulgado por página local e com quase 20 mil curtidas, reuniu mensagens de apoio à mãe, identificada como Sarah, e ao prefeito Dione Araújo. Em paralelo, em Uberlândia foi convocada uma manifestação para esta sexta-feira (20) na Praça Tubal Vilela, com objetivo de denunciar o crime e combater a violência contra a mulher.

O crime

Na noite da última quarta-feira (11), o secretário da prefeitura de Itumbiara, Thales Machado, de 40 anos, teria atirado contra os dois filhos e em seguida tirado a própria vida. O filho mais velho, de 12 anos, morreu no local; o mais novo, de 8 anos, teve morte cerebral confirmada horas depois.

Após o episódio, circulou nas redes sociais um suposto texto publicado pelo autor do crime, em que ele desabafava sobre uma alegada traição da esposa. Embora a publicação não esteja mais disponível, registros e prints foram compartilhados por usuários, o que levou à atribuição de culpa à mãe das crianças. Em seguida, páginas divulgaram um vídeo que mostra a filha do prefeito em um suposto encontro com um amante, o que deslocou o foco do crime para a vida privada da mulher e alimentou a culpabilização nas redes.

Fontes locais consultadas pelo veículo apontam que a cidade está profundamente abalada, mas que a hostilidade verbal contra a mulher predomina sobretudo no ambiente virtual. Perfis falsos foram criados no Instagram e no TikTok se passando pela mãe; ao menos seis permaneciam ativos até a publicação desta reportagem.

Implicações jurídicas e éticas

Bruna Ferreira, advogada criminalista e especialista em Direito das Mulheres, ressalta que a criação de perfis falsos e a exposição indevida violam direitos previstos no Código Civil, como imagem, honra e privacidade, e podem configurar crimes, entre eles falsa identidade (art. 307 do Código Penal) e crimes contra a honra. Segundo a advogada, as vítimas podem buscar a retirada imediata de conteúdos, identificação dos responsáveis pelas plataformas, pedido de indenização por danos morais e responsabilização criminal.

Além disso, Bruna aponta que a conduta de expor publicamente a mulher em situação de luto pode caracterizar violência psicológica e que a Constituição, o Código Civil e o Marco Civil da Internet oferecem instrumentos para responsabilizar autores e plataformas, tanto na esfera cível quanto na criminal.

Do ponto de vista da imprensa, a professora Nicoli Tassis, da Universidade Federal de Uberlândia, critica a divulgação de vídeos e imagens que deslocam a narrativa para a conduta privada da mulher, contribuindo para o processo de culpabilização e transformando a tragédia em julgamento moral. Ela também alerta para os riscos de divulgar imagens das crianças, que, segundo a pesquisadora, violam princípios de proteção integral de menores e ampliam o sofrimento da família.

Nicoli afirma ainda que coberturas de casos de violência exigem cuidado redobrado por parte dos jornalistas, com verificação rigorosa das informações e distinção entre interesse público e mera curiosidade, evitando sensacionalismo e enquadramentos que possam justificar ou naturalizar a violência.

A mobilização nas ruas e a discussão sobre os limites da exposição nas redes e na imprensa seguem como desdobramentos imediatos do caso em Itumbiara.

Com informações de Paranaibamais

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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