Operação identifica uso de instituições de tecnologia financeira para inserir recursos ilícitos no sistema
Uma ação policial e fiscal ocorrida em 29 de maio identificou seis fintechs e quatro fundos de investimento como peças centrais de um esquema que introduziu ao menos R$ 26 bilhões no sistema financeiro entre 2022 e 2025, segundo autoridades. A operação, chamada Fluxo Oculto, é a segunda fase das investigações iniciadas com a Carbono Oculto e teve 59 mandados de busca e apreensão cumpridos.
De acordo com o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), a Receita Federal e a Agência Nacional do Petróleo (ANP), as fintechs atuaram como “bancos paralelos”: receberam dinheiro de origem criminosa — proveniente, em parte, do desvio de nafta usado na adulteração de combustíveis — e o introduziram no sistema formal. O secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, afirmou que as fintechs foram a “porta de entrada” do dinheiro ilícito e que os fundos de investimento foram usados para ocultar patrimônio, por meio de cadeias de aplicações que dificultavam o rastreamento.
As investigações revelaram ainda que as seis fintechs identificadas na Fluxo Oculto teriam substituído três instituições que foram alvo da Carbono Oculto em agosto de 2025, permitindo que o crime continuasse a lavar recursos mesmo após a primeira operação. Segundo o promotor do Gaeco João Paulo Gabriel, líderes do esquema redirecionaram movimentações para essas novas plataformas e o mesmo aparato financeiro foi explorado por diferentes organizações criminosas, não apenas pelo PCC.
Além do volume em reais, a operação identificou transações com criptomoedas que somaram R$ 365 milhões nas instituições alvo. Autoridades explicam que criptoativos também são utilizados por grupos criminosos pela facilidade de movimentação internacional e pelo grau de anonimato.
As investigações e as apreensões ocorreram num contexto de mudanças regulatórias. Em agosto de 2025, a Receita equiparou o tratamento das fintechs ao dos bancos, exigindo envio de informações detalhadas via e-Financeira; a norma sofreu atraso após uma campanha de desinformação conhecida como “fake news do Pix”, que levou à sua suspensão temporária, conforme relato do próprio secretário da Receita. Em seguida, foi criada a DeCripto, obrigando prestadores de serviços de ativos virtuais a declarar transações mensalmente.
O Banco Central também adotou medidas: em setembro do ano passado passou a exigir autorização formal para novas instituições de pagamento e, dois meses depois, reprimiu as chamadas contas-bolsão, usadas para agregar recursos sem identificação individualizada dos titulares — mecanismo apontado como explorado por grupos criminosos para dificultar fiscalização.
Autoridades ressaltaram que parte das fintechs alvo cumpria as obrigações de envio de dados à Receita, enquanto outras não enviavam essas informações, evidenciando lacunas de fiscalização. O superintendente-adjunto da Receita em São Paulo, Claudio Ferrer de Souza, afirmou que a repressão deve ser acompanhada por fiscalização contínua. Em audiências e depoimentos públicos, representantes do BC e da Polícia Federal também destacaram limitações de recursos humanos e tecnológicos para supervisionar integralmente o crescimento do setor financeiro.
Especialistas ouvidos pelas autoridades recomendaram que empresas com exposição internacional reforcem checagens de beneficiários finais, citando o risco de sanções externas após a classificação de facções como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Segundo a professora do Insper Juliana Facklmann, porém, a principal necessidade é aumentar a eficácia dos mecanismos de compliance e identificação de clientes nas fintechs.
Fonte: G1 – Crime organizado na Faria Lima: por que fintechs viraram meio ‘fácil’ de lavar dinheiro?


